O NATAL NO EVANGELHO DE JOÃO: Jesus sempre existiu.  (Natal) escrito em sexta 21 novembro 2014 10:15

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              Enquanto Marcos inicia seus relatos a partir do batismo de Jesus às margens do rio Jordão; Mateus mergulha fundo na literatura dos profetas israelitas preservadas no Primeiro Testamento e Lucas inclui detalhes impressionantes obtidos por testemunhas oculares dos acontecimentos por ele narrado,distintamente de seus companheiros evangélicos, João opta por iniciar sua narrativa sobre o nascimento de Jesus – antes do tempo.

                É muito provável que João tenha tido acesso aos relatos de seus companheiros e contemporâneos. Ao propor uma nova edição dos acontecimentos evangélicos ele prefere dar uma nova perspectiva da origem de Jesus. Ele transcende o tempo e espaço e localiza Jesus no princípio da Criação. Marcos enfatiza a divindade de Jesus no momento do seu batismo, Mateus e Lucas deixam evidente a divindade de Jesus nos acontecimentos que se relacionam ao seu nascimento e João ratificando as informações de seus antecessores declara que Jesus sempre existiu desde o momento iniciante da Criação de todas as coisas. Para ele nunca houve um tempo em que Jesus não existisse – Ele existe desde sempre!

                Aproveitando essa atmosfera festiva, vamos resgatar a forma singular com que João nos apresenta seu relato natalino.

“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus.”[1] (Jo 1.1)

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”[2] (Jo 1.1)

“Antes de ser criado o mundo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e era Deus.”[3] (Jo 1.1)

“Antes de existir qualquer coisa, Cristo já existia, e estava com Deus.”[4]

“No princípio era o Logos e o Logos estava voltado para Deus (com Deus) e o Logos era Deus” (Jo 1.1)[5]

                Os escritores evangélicos que lhe antecedem localizam a origem de Jesus no tempo (Lc imperadores romanos) e espaço (Mt cidade de Belém) João abre sua narrativa evangélica com um enunciado em três partes, onde nos arremete para o princípio de todas as coisas.

No princípio era o Verbo [Palavra] - Ele vai buscar na expressão que abre as páginas da Torá judaica (primeira parte da Bíblica cristã), “No princípio” para indicar a origem eterna de Jesus. Mas há uma substancial diferenciação entre a expressão no livro de Gênesis e a expressão utilizada por João. Em Gênesis a expressão “No princípio[6] marca o ponto de partida de onde todas as coisas passaram a existir, pois antes não existiam; mas o evangelista utiliza a mesma expressão “No princípio” para localizar a existência de Jesus antes da existência da própria Criação. Para João quando todas as coisas passaram a existir, Jesus já existia e se fazia presente, portanto, não apenas o evangelista conecta o relato evangélico com o início da história do mundo, mas como que indica que o nascimento de Jesus é um prolongamento da página inicial da Bíblia inteira.

“No princípio era o Verbo”. Ao utilizar o verbo “era [ser]” no imperfeito[7] para completar o sentido de “princípio” João esta indicando a pré-existência de Jesus; o escritor evangélico esta escrevendo da perspectiva histórica, olhando para trás a partir da Encarnação do Verbo (nascimento físico de Jesus), portanto, Jesus não veio a existir no ato da Criação, mas Ele já existia[8] antes do tempo em que todas as coisas foram trazidas à existência, e no transcorrer da narrativa joanina (8.58) Jesus demonstra ter plena consciência desta verdade ao fazer uma declaração contundente: “Antes que Abraão fosse, eu sou”.

 O Verbo [Palavra] estava com Deus – Se a expressão anterior revela a pré-existência do Verbo com Deus, a segunda revela a distinção entre eles. A preposição grega “com - pros (πρός)” indica um movimento em direção a algo ou alguém, de modo que, aquele que “estava” desde o princípio, nunca esteve sozinho, mas sempre compartilhou da companhia de Deus (Pai).[9] Aqui tem também a ideia de comunhão entre o Logos e o Pai (Théos), de maneira que fazem todas as coisas em comum acordo (Jo 14.11, 20; 17.5,24).

 Era Deus – e concluindo sua afirmação inicial o evangelista mantém com toda clareza a distinção entre os dois seres, todavia, afirma sua unidade de essência. Aqui “Théos - Deus” esta sem o artigo, portanto, faz referencia à qualidade e natureza de Deus e não mais à pessoa do Pai especificamente. O Logos é distinto do Pai, todavia, partilha da natureza divina em toda sua plenitude e assim também é Deus. Aqui João não tem nenhuma pretensão de adentrar nas especulações do Logos do judaísmo helenista ou das ideias gnósticas tão em voga nos seus dias. Mas ciente de sua própria incapacidade, o evangelista não tem a mínima aspiração de explicar os detalhes desta coexistência de Jesus com Deus. Assim como seu antecessor ao abrir o livro de Gênesis, ele apenas faz uma declaração simples e direta da divindade de Jesus. Demonstra total ignorância qualquer ser humano que pensa poder desvendar os mistérios da natureza divina, pois se fosse possível fazê-lo Deus estaria restrito e limitado ao conhecimento humano. Para João os fatos são: em primeiro lugar o Verbo existiu desde o princípio; em seguida, que ele existiu com Deus; e por último que ele era Deus.

 Quando paramos para pensar nessas palavras iniciais do evangelista João, podemos perceber que o Natal não é e jamais será apenas uma “festa”; o Natal é, foi e sempre será o momento incomparável quando o Deus Eterno, na Pessoa do Filho, adentra à nossa História e mais ainda, assume a plenitude de nossa humanidade, para comunicar pessoalmente a nós a Salvação da qual tanto necessitamos.

Assim como a partir da “Palavra – Logos” a primeira Criação veio a existir, semelhantemente a partir de Jesus (Palavra – Logos) encarnado, a segunda e/ou nova Criação esta sendo trazida à existência (“Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação” II Co 5.17, cf. Gl 6.15 ).

Do mesmo modo como nos comunicamos através das palavras, que expressam o nosso conhecimento e a nossa vontade, Deus escolheu se comunicar conosco através de Jesus (Palavra), manifestando a nós o Seu conhecimento e a Sua vontade.

Mas assim como utilizamos as palavras para revelar os nossos sentimentos mais profundos, Deus escolheu manifestar seu mais profundo sentimento de amor para conosco por meio de Jesus (Palavra). Desta forma, somente podemos compreender e sentir o imensurável amor de Deus, quando ouvimos e nos relacionamos com Jesus (Logos).

Da mesma forma que pela Palavra Deus trouxe ordem e harmonia ao planeta que estava em caos, por meio de Jesus (Palavra) Deus trás ordem e salvação à toda pessoa que esta mergulhada em completo caos.

O Natal é a forma encontrada por Deus, para falar a cada ser humano, o quanto Ele nos ama!

 

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Guedes, Ivan Pereira

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[1] NVI - Versão em Português: Nova Versão Internacional

[2] RA - Versão em Português: João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada

[3] BLH - Versão em Português: Nova Tradução na Linguagem de Hoje

[4] BV – Versão em Português: Bíblia Viva [paráfrase]

[5] Tradução de A. Feuillet

[6] Gênesis, [hebraico בראשׁית – Bereshith], proferida pela palavra grega [εν αρχη]

[7] Diferentemente do verbo no tempo aoristo, que indica um tempo especifico para a ação, no tempo imperfeito a ação se prolonga indefinidamente desde o momento iniciante, produzindo a ideia de algo que transcende o tempo. O verbo “ser” no imperfeito trás a ideia de existência – de algo que existe desde o princípio, que existe de maneira absoluta, desde sempre.

[8] O Ap. Paulo tem o mesmo entendimento (Col 1.15).

[9] Nos textos do Segundo Testamento, a palavra Théos (θεός), com o artigo, comumente refere-se à pessoa do Pai, no contexto da Trindade.

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NATAL – QUERO VER JESUS?  (Natal) escrito em terça 11 novembro 2014 12:43

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Em um bairro de periferia de uma grande cidade morava um sapateiro chamado Martim. Era um bom homem que lia sempre as narrativas evangélicas e acalentava um desejo muito grande de poder ter tido a oportunidade de ver Jesus, como aquelas pessoas dos evangelhos o tinham visto.

Na noite de antevéspera do Natal ele sonhou que Jesus lhe dizia: “Martim amanhã passarei em seu bairro!

Ao amanhecer Martim acordou, tomou seu café, fez sua leitura bíblica e saiu para ir a sua oficina, pois algumas pessoas ficaram de buscar suas encomendas. Ao sair para a calçada lembrou-se das palavras de Jesus em seu sonho e começou a olhar mais atentamente na esperança de que de fato pudesse vê-lo passando por ali.

Viu um velhinho esforçando-se para colocar o lixo para fora, mas a lixeira era alta. Aproximou-se então e ajudou aquele pobre homem. Continuou então seu percurso e duas quadras depois viu uma jovem mãe com sua pequena filha ao lado, com um semblante de grande apreensão. Conversando com a mulher descobriu que não haviam comido nada ainda naquela manhã e como estavam próximos da padaria entrou com ela e mandou lhes servirem um lanche e um café com leite. Estava já se aproximando de sua sapataria quando percebeu o movimento de dois adolescentes que assediavam uma senhora na tentativa de roubar-lhe a bolsa. Apressou seus passos e colocou-se entre eles e a mulher iniciando uma conversa como se a conhecesse, de maneira que os jovens desistiram de suas pretensões.

Chegando ao seu estabelecimento comercial, após abrir a porta, olha atentamente para a rua, na esperança de que por alguma razão seu sonho de ver Jesus passando por ali se concretizasse – mas tudo lhe pareceu exatamente como todos os dias. Resignado mergulhou em seu trabalho.

A noite chegou. Martim prepara-se para dormir, em seu pensamento dizia: “O natal chegou e Jesus não veio.” Fez sua oração e deitou-se. Enquanto dormia teve mais um sonho onde ouvia uma voz que dizia: “Martim você não me reconheceu hoje?” Ele então pergunta: “quem?”. A voz lhe respondeu: “Eu, Jesus!” Então Martim viu o rosto de cada uma daquelas pessoas que ajudara naquela manhã, Enquanto caminhava até sua sapataria, e cada um deles dizia: “sou Eu, sou Eu....”

Para vermos Jesus é preciso reconhecê-Lo em nosso próximo!

Disse Jesus:

“Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. (Mt. 25.40)

 

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RELATOS EVANGÉLICOS DO NASCIMENTO DE JESUS: Uma Crônica Teológica  (Natal) escrito em quinta 06 novembro 2014 10:57

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            Quando abrimos as páginas iniciais das narrativas evangélicas elaboradas por Mateus e Lucas deparamo-nos com as informações sobre o nascimento de Jesus. Os outros dois evangelistas, Marcos e João, optaram por não registrarem informações sobre estes acontecimentos. Marcos inicia com a pessoa de João Batista e sua pregação contestadora da frívola religiosidade judaica de seus dias e prenuncia a vinda daquele que haveria de mudar radicalmente esta caótica situação; O evangelista João opta por retroceder à origem divina de Jesus apresentando-o como a plena revelação de Deus ao seu povo e a partir de então à toda humanidade.

            Apressadamente alguns comentaristas têm inferido de que os relatos natalícios são informações secundárias e, portanto de importância periférica para a compreensão da mensagem evangélica; outros entendem que as informações de Mateus e Lucas são introduções opcionais sobre o personagem central do evangelho e que poderiam ser suprimidas sem causar danos maiores ao desenvolvimento das narrativas e sua mensagem.

            Essas deduções apressadas não são validadas por um estudo mais criterioso do conteúdo destas informações iniciais e o conjunto das narrativas que se seguem. Os textos natalícios são parte integrante da elaboração evangélica proposto por seus respectivos escritores e estão perfeitamente sincronizadas com o todo dos relatos posteriores; com ausências destas informações preliminares a composição sofreria um lapso histórico-teológico irreparável, empobrecendo as narrativas sucessivas. Tanto Lucas quanto Mateus se utilizam deste preambulo natalício para preparar seus leitores para uma compreensão mais profunda dos temas que estão por serem abordados ao longo das suas narrativas.

            É preciso alertar sempre para o fato de que nenhum deles esta escrevendo uma biografia, nos molde moderno do termo, mas tão somente registrando dentro de critérios por eles estabelecidos, os acontecimentos envolvendo a vida de Jesus. Por outro lado, tais relatos não se constituem em uma coletânea de lendas místicas, utilizadas desde muito para enaltecer o personagem central em relação aos demais. De maneira que, o ambiente proposto por Lucas e Mateus é muito distinto daqueles encontrados nas narrativas evangélicas denominadas apócrifas, como por exemplo, o Protoevangelho de Tiago, ou o Evangelho da infância segundo Tomé, que registram o sobrenatural como artificio para suscitar a admiração dos leitores. Para Lucas e Mateus os relatos são apenas preparatórios para se compreender de forma mais adequada quem foi Jesus e a razão de seu ministério, sua morte e ressurreição.

            Esses relatos natalinos também se constituem em importante ponte de ligação com os registros na primeira parte da Bíblia. Os personagens aqui mencionados são representativos da herança religiosa desenvolvida por séculos dentro do judaísmo. Para Lucas e Mateus compreender a mensagem do Primeiro Testamento é compreender corretamente a manifestação do Advento de Cristo, pois Jesus se constitui no cumprimento de tudo quanto foi proclamado no transcorrer de toda história israelita. Pois dentro da forma interpretativa dos evangelistas, suas introduções natalícias têm como propósito relacionar diretamente o tempo de Jesus como a conclusão do tempo israelita e a inauguração do novo tempo da igreja. Pois para os evangelistas os propósitos de Deus são revelados paulatinamente e se desenvolvem no transcorrer dos fatos por eles registrados em seus respectivos evangelhos.

            Quando analisadas separadamente as duas narrativas são diferentes, mas jamais contraditórias; mas quando estudadas conjuntamente elas se completam de forma harmoniosa como se completam e se harmonizam perfeitamente os diversos instrumentos em submissão a musica composta e sob a batuta de um único regente.

            Aproximação do natal possibilita e estimula uma leitura desses relatos tão ricos sobre o nascimento de Jesus. Caberá a cada leitor as suas próprias conclusões sobre a relevância dessas informações para compor sua significação do que Jesus é para eles. Desde os escritores e seus primeiros leitores, bem como dos últimos a lerem essas narrativas natalinas, o pressuposto da fé e continuara a ser sempre um fator decisivo para recepção, interpretação e divulgação desta mensagem, que mesmo após dois mil anos ainda permanecem tocando profundamente a vida de milhões de pessoas em todo o mundo que leem e ouvem essas narrativas natalícias de Jesus.

 

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ZELOTES: Movimento Radical Judaico  (Evangelhos) escrito em quarta 22 outubro 2014 17:44

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Entre os homens que Jesus separou para constituir sua equipe mais pessoal de discípulos, que passaram a serem identificados por apóstolos, encontra-se ao menos um identificado como sendo um zelote – Simão o Zelote (Lucas 6.15 e Atos 1.13).[1]

Quem foram os zelotes? Revolucionários? Movimento religioso? Abaixo procuro trazer algumas informações que podem ajudar a formar uma concepção mais real desse grupo contemporâneo de Jesus.

Diante da ocupação de sua nação pelo poderoso Império Romano os judeus se dividem em aqueles que se tornam colaboradores e aqueles que resistem. Entre os colaboradores com os romanos estão de forma mais explicita os herodianos[2], partidários de Herodes Antipas e os saduceus, ligados diretamente ao Sumo Sacerdote e ao Templo e que não desejavam irritar os mandatários romanos; dos opositores há os fariseus que resistem de forma menos incisiva e os zelotes que estavam dispostos a ações mais contundentes e até mesmo violentas. Josefo (Antiguidades Judaicas. xviii. 1.1,6; B. J. ii.l) refere-se a eles como a “quarta seita de filosofia judaica” (ou seja, em adição aos fariseus, saduceus e essênios) que foi fundada por Judas, o Galileu (cf At 5.37).

 O nome “zelote[3] vem do grego (Zhlwthj) “ser zeloso por, desejar grandemente, alguém zeloso” que pode estar relacionado com à pratica da Torá judaica (SAULNIER e ROLLAND, 1983, p. 55), mas é verdadeiro que essa era uma característica de todos os demais segmentos religiosos judaicos (HORSLEY e HANSON, 1985). Pode-se concordar com Hale quando ele afirma que os zelotes eram extremistas do partido dos fariseus que defendiam a independência da Nação e autonomia plena dos judeus (HALE, 2001, p. 19-20).

            Há muitas dúvidas sobre sua origem tanto no que concerne a data quanto de que segmento religioso eles se originaram. O movimento dos zelotes parece ter tirado sua inspiração dos hasmoneus (ou seja, o Macabeus) e de Finéias, neto de Arão. Quando Israel no deserto pecou adorando Baal-Peor, e quando um israelita tomou por esposa uma medianita desrespeitando a Lei de Moisés, foi Finéias, que em seu zelo para com o Senhor matou ambos, aplicando, assim, a ira de Deus para com os rebeldes israelitas (Números 25: 1-15.). Como Finéias, os Hasmoneanos eram zelosos pela lei de Deus, livrando a terra e o templo de apóstatas (I Macabeus 2.19-28). Alguns os colocam juntos com os sicários;[4] outros compreendem que sua origem esta no movimento produzido pelos essênios, um grupo monástico que vivia isoladamente no deserto. Quando optamos apenas pelas informações do historiador judaico Flavio Josefo os zelotes era apenas um grupo terrorista da época.[5] Ainda com base nos relatos do historiador judeu, os zelotes utilizavam um discurso social religioso para camuflar suas ações de espoliação e saques, pois entendia que este enriquecimento era fruto das ligações e comercialização com o Império Romano, alvo de sua ira acumulada.

            Outra forma de interpretar este grupo dos zelotes é enxergá-los como um movimento religioso-politico com fortes convicções messiânicas e que esperavam que Israel viesse a ser o centro do governo mundial do Messias. Mas, diferentemente de outros grupos religiosos como os saduceus, fariseus e os essênios, os zelotes estavam dispostos levar suas propostas às últimas consequências.

Na pressa de estabelecer um link do movimento dos zelotes com o movimento cristão, se utiliza o fato de Jesus ter enfatizado em seu ensino aos discípulos a necessidade deles “tomarem a cruz” para poder segui-Lo, visto que a cruz também se constituía em um símbolo que os zelotes impunham aos seus adeptos.[6] Entretanto, um exame ainda que superficial da proposta evangélica de Jesus torna-se evidente que são completamente antagônicas e irreconciliáveis com a proposta libertária político-econômica dos zelotes.[7]

Outra associação se tem feito pelo fato de que os zelotes também eram chamados de "galileus". Judas, o organizador do movimento da liberdade, tanto no livro de Atos (5.37) e em Josefo, recebe a alcunha de "o Galileu". A persistente resistência na Galiléia contra Herodes, e a insurreição após sua morte, mostram que esta província era desde cedo um centro revolucionário de oposição ao poder estrangeiro e seus apoiadores. A cidade de Séforis, na Galiléia parece ter sido a principal fortaleza em que os Zelotes concentraram suas forças. Era muito natural, que todos os rebeldes em todo o território judeus passassem a ser chamados de "galileus". Jesus Cristo vem justamente dessa região da Galiléia e é denominado na narrativa bíblica de Galileu, bem como muitos de seus discípulos (Lc 22.59; 23.6 e Atos 1.11; 2.7).

Por fim, Alguns estudiosos associam Jesus com este movimento fanático, por causa do título sobre a cruz: "Este é o Rei dos Judeus", indicação que Pilatos condenou-o como um nacionalista violento. Entretanto, o todo do ensino e ações de Jesus indica o contrário. Um verdadeiro revolucionário fanático nunca defenderia, "Amai os vossos inimigos" (Mateus 5.44), o pagamento de impostos a César (Mateus 22.21, Marcos 12.17, Lucas 20.25), e ficaria satisfeito com duas espadas (Lucas 22.38), para produzir uma revolta contra o maior império da época.                                                                                     Aspectos Teológicos dos Zelotes

            Existe uma escassez de informação sobre o pensamento doutrinário ou teológico dos zelotes, mas por advirem do farisaísmo podemos fazer uma aproximação nos aspectos em que se assemelham e destacarmos os aspectos que os distinguem.

 A Relação dos Zelotes com a Lei, o Templo e a Influência Helenista

            Como mencionado acima eles tinham um ferrenho apego à Lei mosaica, no que se assemelha aos fariseus, em que os aspectos não apenas religiosos, mas também os sociais deveriam ser orientados pela observância dessa Lei. A questão da idolatria também era fundamental, pois há somente um Deus verdadeiro e que exige adoração exclusiva. Um diferencial deles com os fariseus esta na relação do Templo, que para eles era fundamental e com o qual mantinham fortes laços, pois muitos eram sacerdotes dissidentes.[8] Em concordância com os fariseus eles repudiavam toda e qualquer influência do helenismo na cultura e religião judaica.

O Pensamento Messiânico dos Zelotes

            O messianismo dos Zelotes estava vinculado diretamente à rejeição do jugo romano, dentro da cosmovisão de que Israel era a nação escolhida para reinar com o Messias no Reino Escatológico.[9] Eles levaram esta intepretação ao extremo, de maneira que somente um governo teocrático teria legitimidade e que no caso específico deles o governante seria um Sacerdote, daí a importância que davam ao Templo. Para estabelecer novamente a teocracia, a resistência armada foi sancionada, tal como tinha sido com os Macabeus. Esta mensagem escatológica radical tornou-se o credo de um movimento popular substancial.

            O zelo pela santidade e redenção de Israel exigia uma total devoção à vontade de Deus, uma prontidão para sofrer e até mesmo sacrificar a própria vida. Para eles, a passividade dos contemporâneos em relação ao jugo pagão (Roma) fazia com que a manifestação do Reino dos Céus fosse adiada, o que justificava seus esforços guerrilheiros para remover o jugo romano e apressar a vinda do grande dia.

            Somente esta interpretação escatológica radical poderia explicar o fato de que centenas de zelotes tornaram-se mártires quando da invasão dos exércitos romanos sobre Jerusalém, pois com suas mortes eles estavam abrindo o caminho para o Reino eminente de Deus.

 Resumo Histórico do Movimento dos Zelotes

0 d.C. - Eles surgem no inicio do primeiro século da era cristã como oposição radical contra o governo de Herodes, o Grande.

06 d.C. - Os zelotes, sob a liderança de Judas da Galiléia, iniciam uma rebelião como protesto contra Judá que é colocada totalmente sob o domínio romano. A rebelião, foi rapidamente derrotada e muitos de seus líderes foram mortos.

Cerca de 10 a 60 d.C. os zelotes ainda estão ativos em ataques terroristas, mas apenas em pequena escala.

66 d.C. - Os zelotes são centrais na organização da revolta contra os romanos.

70 d.C. - A rebelião judaica em Jerusalém é esmagada, e com ela a maior parte dos zelotes são mortos.

73 d.C. - Com a queda de Jerusalém, um grupo de Zelotes se refugiam e resistem na fortaleza de Massada[10] onde finalmente são derrotado pelos exércitos romanos, e cometem suicídio coletivo. Mas isso não representa o fim dos zelotes, pois havia vários pequenos grupos em torno da Palestina que continuou a ser ativo.

2º séc. d.C. - Últimos relatórios de atividade dos Zelotes.

 

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Referências Bibliográficas

ANDRADE, Claudionor de. Geografia Bíblica: a geografia da Terra Santa é uma das maneiras mais emocionantes de se entender a história sagrada. 13ª. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

BRANDON, Samuel George Frederick. Jesus and the Zealots – a study of the political fator in primitive christianity. New York: Charles Scribner’s Sons, 1967.

BRIGTH, Jonh. História de Israel. 7ª. ed. São Paulo: Paulus, 2003.

DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.

HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001.

HORSLEY, Richard A. & HANSON, John S. Bandidos, profetas e messias: movimentos populares no tempo de Jesus. 2 ed. São Paulo: Paulus, 1995.

JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no Tempo de Jesus: pesquisa de história econômico-social no período neotestamentário. 4 ed. São Paulo: Paulus, 1983.

LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

OTZEN, Benedikt. O Judaísmo na Antiguidade: a História política e as correntes religiosas de Alexandre Magno até o Imperador Adriano. São Paulo: Paulinas, 2003.

PIXLEY, Jorge. A História de Israel a partir dos pobres. 9ª ed. Petrópolis: Vozes,

2004.

SAULNIER, Christiane & ROLLAND, Bernard. A Palestina nos tempos de Jesus.

ed. São Paulo: Paulinas, 1983.

SCARDELAI, Donizete. Da religião bíblica ao judaísmo rabínico: origens da religião de Israel e seus desdobramentos na história do povo judeu. São Paulo: Paulus, 2008.

SCHUBERT, Kurt. Os Partidos Religiosos Hebraicos da época Neotestamentária. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 1979.

STEGEMANN, Ekkehard W. e STEGEMANN, Wolfgang. História social do protocristianismo. São Leopoldo, RS: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004.

ZEITLIN, Irving M. Jesus and the Judaism of his time. John Wiley & Sons, 2013.

Contexto Histórico-Social, Político, Religioso e Cultural no Livro de Atos. Disponível em

< http://www.geocities.ws/joshuaibg/textos/contexto_historico_atos.htm >. Acesso em

21/09/2014.

Dicionário Bíblico. Disponível em

<http://www.bibliaonline.net. Acesso em 21/03/2014.

SILVA, Andréia Cristina Lopes Frazão da. A Palestina no Século I d. C.

Disponível em < http://ejesus.com.br/a-palestina-no-seculo-i-d-c/>. Acesso em

29/08/2014.

 

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[1] As narrativas evangélicas são econômicas quanto aos detalhes biográficos de Simão. As listas apostólicas (Mt 10.2-4, Mc 3-16-19, Lc 6.13-16 e At 1.13) encerram tudo o que sabemos, biblicamente, acerca de Simão. Informações históricas difíceis de serem atestadas indicam que era da pequena Cana da Galiléia e um dos prováveis convidados da festa de casamento onde Jesus realizou o primeiro milagre; o texto apócrifo do Evangelho dos Ebioniotas o coloca entre os primeiros discípulos chamados à beira mar na Galiléia; outra informação o coloca entre os pastores que ouviram o anuncio do nascimento do Salvador; Doroteu, bispo de Tiro, declara: “Pregou a Cristo através de toda Mauritânia e África Menor. Foi, por fim, crucificado, dilacerado e enterrado na Britânia”.

[2] Este grupo gravitava ao redor de Herodes Antipas, que era nomeado pelo Imperador Romano. Os herodianos viam em Jesus uma ameaça ao governo de seu bem feitor, por isso sempre tratavam Jesus com hostilidade (Mt 22.16; Mc 3.6; 12,13).

[3] Em relação ao termo “zelote” de origem grega utilizado por Josefo, Martin Hengel observou que na Septuaginta as palavras hebraicas “El Kannai” ("Deus zeloso") são traduzidos como “Theos zelote”, a palavra zelote na literatura grega em geral tem uma conotação moral que é retida na Septuaginta, a tradução helenístico judaica da Bíblia Hebraica. Entretanto, a palavra, tinha um significado distinto na Cultura judaica da época, para a qual não existe equivalente grego, ou seja, devoto e zeloso são sinônimas de religioso. Assim, tornou-se o nome de um "partido" que era zeloso por Deus.

[4] Autores como Smith, Rhoads, Horsley, Crossan e outros, consideram os “sicários” e “zelotes” como movimentos independentes (STEGEMANN, 2004, p. 202).

[5] Ele chama-os de "salteadores" e de "bandidos" em suas várias citações e somente na insurreição judaica de 66 d.C. ele os chama pela primeira vez de "zelotas". Porém, no entendimento de Pixley (2004, p. 127) Flavio Josefo tem uma má vontade por não simpatizar-se com os zelotas, ainda que reconheça o papel deles quando da guerra contra os romanos. Outro fato é que Josefo desejava desvincular os zelotes do movimento dos fariseus.

[6] No período de 6-66 d.C., o movimento zelote, ganhou mais e mais adeptos, o que levou os estudiosos, a partir da proposta de Hermann Samuel Reimarus, no século XVIII, de associar Jesus com este movimento.

[7] Como uma das ironias da história, a narrativa evangélica lucana coloca o nascimento de Jesus no momento em que o Império Romano, ano 06 d.C., decreta o censo por toda Judéia como marco do pleno domínio sobre eles. Este censo tinha como objetivo determinar a quantia de tributos que os judeus deveriam pagar a Roma, de maneira que provocava na população um espírito de humilhação por sua sujeição a uma potência estrangeira, que vai incitar e nutrir o movimento dos Zelotes. (BRANDON, 1967, p. 26).

[8] Horsley discorda dessa associação imediata entre os Zelotes e sua origem sacerdotal, pois entende que o “zelo” pelo Templo foi circunstancial, uma vez que foram forçados a utilizar o Templo como refugio, quando acossados pelas autoridades judaicas e romanas em Jerusalém. (1995, p.229).

[9] Judas Galileu organizou um movimento que se fundamentava: a) no reinado exclusivo de Deus e, b) o ser humano deveria colaborar com Deus, evitando qualquer outro domínio.

[10] Massada, que, provavelmente, significa "lugar seguro" ou "fortaleza", é um imponente planalto escarpado, situado no litoral sudoeste do Mar Morto. O local é uma fortaleza natural, com penhascos íngremes e terreno acidentado. Na parte leste, a face do penhasco se eleva 400 metros acima da planície circundante. O acesso só é possível através de uma difícil trilha que serpenteia pela montanha.

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CÂNTICO DOS CÂNTICOS – Introdução  (Cantares) escrito em quarta 01 outubro 2014 18:10

Blog de reflexaobiblica :REFLEXÃO BIBLICA, CÂNTICO DOS CÂNTICOS – Introdução

 

Os que amam sempre percebem que o cântico é a única expressão adequada para sentimentos intensos, prazer arrebatador, compromisso profundo. Dominados pelo desejo de dar-se para o outro e de receber dele o que não se pode pedir, não inventam fórmulas, não preparam receitas, não escrevem rituais, não desenham mapas, não elaboram gráficos. Cantam. Encontram nas Escrituras Sagradas o melhor dos cânticos.

LASOR, William S.

 

            Os séculos se passaram, mas a literatura contida na primeira parte da Bíblia continua sendo lida por milhões de pessoas. Grande parte desses leitores compartilha da mesma perspectiva de que são textos inspirados por Deus e, portanto devem ser tomados como regra de fé e pratica. Mas, outra parcela significativa de leitores, mesmo que avessos à conotação religiosa dos textos são atraídos pelas qualidades inerentes de sua temática, capaz de comover e encantar. As questões da autoria desses textos sempre são muito discutidas, bem como as datas exatas em que eles foram escritos, mas de forma alguma estas discussões e outras que serão aqui abordados de forma introdutória, são capazes de ofuscar a beleza da sua forma literária, que têm emocionado os seus milhões de leitores ao longo dos séculos e continua impactando leitores ainda hoje.

            Mas sem dúvida alguma, dentre todos os textos que compõem o Primeiro Testamento, nem um tem produzido mais fascinação e discussão do que o pequeno livro poético – Cântico dos Cânticos[1] também denominado de Cantares e/ou Cantares de Salomão. Seu conteúdo explicitamente sensual produz um forte contraste de seus pares literários e muitas vezes seu conteúdo acaba sendo “escondido” por aqueles que detêm a responsabilidade de expô-lo para as novas gerações de leitor-ouvintes nos dias presente.

            O singelo esforço que faço aqui é tão somente o de fazer realçar a beleza desse interlúdio lírico cuja mensagem precisa não somente ser redescoberta, mas também deve ser colocada em prática, pois fornece uma excelente receita para uma vida conjugal prazerosa e feliz, bem como serve de parâmetros para uma prática sexual que confronta abertamente a inconsequente libertinagem e permissividade que a Sociedade tem adotado nesses últimos tempos.

            Diante de um quadro social cada vez mais caótico, onde o numero de divórcios aumentam assustadoramente, em que o número de meninas e adolescentes grávidas parece não declinar e a liberalidade sexual é ensinada didaticamente nos meios de comunicação, torna-se urgente “descobrir” esse precioso livro do Cântico dos Cânticos e seu salutar e libertador ensino sobre as temáticas sexuais, sem medo e sem pudor moralista, pois se trata de um livro que detêm exatamente o mesmo valor e relevância dos demais livros que conjuntamente formam a primeira parte da Bíblia.

 

Contexto Histórico

            A leitura do texto arremete aos dias do reinado de Salomão, no inicio da monarquia israelita. Percebe-se um período de tranquilidade e paz onde o casal central desenvolve sua historia amorosa, o que corrobora para o período áureo dos reinados de Davi (ao final) e Salomão.[2] As diversas referências a animais e plantas exóticas também arremetem ao vasto conhecimento adquirido por Salomão. As citações geográficas indicadas na história também fortalece o período inicial quando o reino estava unificado, tais como Tirza,[3] Sarom, Líbano, Hermom e Carmelo na região ao norte e Jerusalém e Em-Gedi, ao sul. Inclui ainda os territórios de Hesbom e Gileade na Tansjordânia, indicando estarem todos sob um mesmo governo, o que não mais ocorreu após a morte de Salomão e a divisão do reino. A abundância de mercadorias, principalmente perfumaria, exóticas advindas do Extremo Oriente corresponde ao forte período de comercio exterior promovido nos dias do reinado salomônico.[4]

 

Autoria

            Como referido acima, a questão da autoria do livro é bastante discutida. Muitos estudiosos atuais tem negado a autoria de Salomão, bem como o contexto histórico acima mencionado. Para esses críticos literários o livro é na verdade uma coletânea de canções que eram entoadas nas celebrações nupciais (GORDIS, 1974, apud, ORR, 2008, p 973). Entretanto, é possível se perceber na redação um conjunto de vocabulários e de ideias que permite concluir que há um autor comum.

Alguns argumentos contrários à autoria do rei israelita: há 49 palavras que aparecem somente neste livro; utilizam-se palavras ou expressões semelhantes ao aramaico somente encontrado nas composições pós-exílicas, de fontes persas e gregas. Uma resposta a essas questões é de que ao se referir a termos técnicos das especiarias culinárias e de perfumaria estrangeiras, utilizam-se os termos da origem deles, o que é comum em qualquer transliteração de palavras estrangeiras. Após citar os argumentos gramaticais contrários à autoria de Salomão e demonstrar que não são tão relevantes como parecem à primeira vista, Dockery conclui: “Em resumo, o vocabulário de Cântico dos Cânticos não comprova que se trata de uma obra de composição posterior” (2001, p. 411).

A própria narrativa trás algumas referências diretas a Salomão. A primeira abre o livro “Cântico dos cânticos de Salomão” (1.1), entretanto esta preposição “de” no hebraico pode ser entendida como: “para Salomão” ou “sobre Salomão”. Deste modo a história pode ser da autoria pessoal de Salomão, como também que alguém dedicou a história a ele ou ainda que se escrevesse inspirado nas referências amorosas dele (HILL e WALTON, 2006, p. 411). Todavia, como analisa corretamente Redford a preposição aqui utilizada é a “auctoris lamedh” (לְִשל) “que é de Salomão” e se o sentido fosse cântico “sobre Salomão”, outra preposição (עַל) teria sido utilizada. É relevante também a observação feita por Delitzsch em seu comentário ao título, de que a ausência de qualquer descrição de Salomão como "Rei de Israel" ou "filho de Davi", como em Provérbios e Eclesiastes, confirma a visão de que o próprio Salomão era o único autor. Nas demais menções diretas (1.5; 3.7, 8,11; 8.11,12) não é possível embasar uma afirmação explicita dele como autor, ainda que sua capacidade literária seja atestada (1 Rs 4.29-34).

Outro argumento que reforça a autoria salomônica é o fato de que há uma semelhança literária entre a narrativa bíblica e a narrativa poética egípcia. A temática e ideias que tecem a história de Cantares são possíveis de serem encontradas nas canções de amor produzidas no Egito no período de 1300 e 1100. A relação de Salomão com o Egito vai muito além da formalidade de seu casamento com a filha do faraó. Avido de conhecimento (1Rs 4.29-34) ele manteve-se em contato com a cultura egípcia e com certeza familiarizou-se com a literatura poética anteriormente produzida por eles. Por outro lado, para aqueles que argumentam contra a autoria salomônica, fica o ônus de explicar por que Cântico dos Cânticos tem tanto em comum com a poesia egípcia antiga se foi composto cerca de 650 depois de Salomão. Como tão bem coloca Dockery:

Um obscuro compositor judeu, trabalhando um milênio depois que esse tipo de poesia romântica foi produzido no Egito, não poderia ter escrito acidentalmente uma obra tão parecida com a poesia egípcia. Também não é razoável argumentar que ele conhecia e havia imitado de maneira deliberada uma forma de arte antiga, estrangeira e provavelmente esquecida naquela época. (2001, p. 412).

Alguns críticos tem levantado a hipótese de que o autor seja do Reino do Norte, durante o período inicial do reino divido, tendo como base o fato de que a narrativa coloca Tirça (Tirtzáh) capital do Reino do Norte, no mesmo nível de Jerusalém, capital do Reino do Sul e levando em conta os diversos pontos de referências nortistas cheias de lugares pitorescos que proporciona o contexto idílico do poema. O fato de que o norte tinha diversas fronteiras os tornavam mais propensos à influência dos povos vizinhos, tanto na cultura quanto na linguística.

            Nessas últimas décadas tem florescido a ideia de que o poema tenha sido escrito por uma mulher. Uma das razões citadas esta no fato de que em nenhum momento se faz referência à figura do progenitor (pai) da personagem central, mas todas as referências são à progenitora (mãe) dela, o que contrasta fortemente com o período patriarcal da época e acentuadamente israelita/judaica (PERRIER, 1970-1971, p. 143-144, apud CAVALCANTI, 2005, p. 25).

            O fato de que os judeus o colocaram no conjunto canônico de literatura religiosa,[5] tendo como referência a autoria salomônica, se constitui em forte argumento de sua autenticidade e corroborado por amplo testemunho histórico.[6] De maneira que se torna natural aceitarmos que o livro foi escrito neste período salomônico.

 

Data

            Partindo de uma analise literária, o poema foi escrito em um hebraico maduro, ainda que haja diversas palavras estrangeiras, conforme acima mencionadas. A maioria das referências e alusões no Cântico conduz à autoria indicada no primeiro verso – Salomão. Sendo a obra um panegírico composto em homenagem ao rei por alguém ligado ao circulo salomônico e o escritor sendo da região norte, explicam-se mais facilmente as peculiaridades do vocabulário e fraseologia, conforme referida acima. Portanto, as indicações acima nos conduzem a fixarmos o tempo da composição no período do reinado de Salomão no final do século X a.C.[7]

 

Canonicidade

            Como mencionado acima o fato de Cantares ser incluído no cânon veterotestamentário foi fundamental para que ele fosse não apenas preservado, mas aceito como inspirado. Todavia, não significa que foi uma inclusão unanime e fácil. Houve inúmeras barreiras que precisaram ser transpostas até o famoso Conselho de Jâmnia ou Yavne, onde todas e quaisquer questionamentos em relação a permanência de Cantares entre a literatura canônica foi ratificada.

            Cantares está incluído na terceira parte da Bíblia Hebraica, denominado de Escritos (heb. Ketûbim), que no inicio do período cristão foi cunhado de “hagiografha” (escritos sagrados). Nos dias de Jesus já havia a tríplice divisão do cânon hebraico: Pentateuco (livros de Moisés), Profetas (incluindo os que denominamos históricos) e Salmos e/ou Escritos.

            Dentro dos Escritos há uma subdivisão denominada de “Megilloth” ou “Rolos” que eram lidos durante as cinco grandes festas religiosas dos judeus, de maneira que Cântico dos Cânticos era lido durante a Festa da Páscoa, a maior e mais significativa festa do calendário judaico.

            As palavras do rabino Akiba (c. 100 d.C.) deixa bem claro a posição oficial dos judeus em relação ao livro de Cantares: “O mundo inteiro não é digno do dia em que Cântico dos Cânticos foi dado a Israel; todos os Escritos são santos, e Cântico dos Cânticos é o santo dos santos”. (LASOR, 1999, p. 558).

 

OS ESCRITOS E/OU HAGIÓGRAFOS

Terceira Parte do Cânon Hebraico

Livros Poéticos

Salmos “Livro dos Louvores”

Provérbios

 

Rolos (Lido nas Festas)

Cantares e/ou Cântico dos Cânticos (8º dia da festa da Páscoa)

Rute (Pentecostes e/ou festa das Colheitas)

Lamentações [de Jeremias] (Proclamação da Destruição de Jerusalém)

Eclesiastes (festa dos Tabernáculos)

Ester (festa do Purim)

 

História

Daniel

Esdras-Neemias

Crônicas (1 e 2)

 

           

Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

ivanpgds@gmail.com

Outro Blog

http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

 

 

 

Próximo: Como Cantares Tem Sido Interpretado

 

Referências Bibliográficas

CAVALCANTI, Geraldo Holanda. O cântico dos cânticos – um ensaio de intepretação através de suas traduções. São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 2005.

DOCKERY, David S. (Org.). Manual bíblico vida nova. [Tradução Lucy Yamakami, Hans Udo Fuchs, Robison Malkomes]. São Paulo: Vida Nova, 2001.

HILL, Andrew E. e WALTON, J. H. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo, Editora Vida, 2006.

LASOR, William S., HUBBARD, David A. e BUSH Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999.

KEIL, C. F. e DELITZSCH, Franz. Commentary on the Old Testament - The Song of Solomon.  Massaschusetts: Hendrickson Publishers, 2006. [edition originally published by T. & T. Clark, Edinburgh, 1866-91.

ORR, R. W. Cântico dos Cânticos. In: BRUCCE, F. F. (org.) Comentário bíblico NVI – Antigo e Novo Testamento [tradução: Valdemar Kroker]. São Paulo: Editora Vida, 2008.

PERRIER, François. Lamour – séminaire 1970-1971. Paris, Hachette, 1998, pp.143-144.

REDFORD, R. A. e CAFFIN, B. C. Song of Salomon. [Serie: Pulpit Commentary]. London e New York: Funk & Wagnalls, 1913.

YOUNG, Edward J. Una introduccion al Antiguo Testamento. USA: Ed. TELL, 1977 [1ª versão espanhol].

GORDIS, Robert. The Song of Songs and Lamentations. New York, 1974.

 

ARTIGOS RELACIONADOS

Diversos Artigos sobre o Cânon do Antigo Testamento

http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/r72867/AT-Canon/2/



[1] Cântico dos Cânticos é um hebraísmo a expressa o superlativo “sîr hassîrîm” (Ct 1.1), que trás a ideia de excelência, o que esta acima dos outros. No sentido literário refere-se à sua beleza e plasticidade poética e no sentido histórico a consagração da tradição poética de Israel. A Vulgata, tradução latina, é que popularizou o titulo de “Canticum Canticorum”, donde vem o título alternativo Cantides ou Cantares. A expressão Cântico dos Cânticos demonstra o desejo do autor  em realçar a relevância desse livro.

[2] Depois do período da paz salomônica, somente no sec. IV a.C., com o advento do Império Medo-Persa que houve uma pacificação semelhante em toda terra de Israel, conhecida como a Pax Persica, de maneira que qualquer pessoas podia viajar por todo o país livremente, desde Em-Gedi até o Líbano (ORR, 2008, p. 974).

[3] A narrativa coloca Tirza e Jerusalém como cidades equivalentes (6.4), o que foi possível somente no reino unificado, pois após a divisão e nos dias de Onri (886-874 a.C.) Samaria assume o centro das atenções como nova capital do reino do norte. Deste modo, a indicação realça o fato de que o contexto histórico da narrativa se passa antes dos dias de Onri.

[4] O comércio entre o norte da índia e a Mesopotâmia estava bem estabelecido no terceiro milênio a.C, como certamente era com o Egito, de modo que na época de Salomão havia uma longa tradição de contatos comerciais com o Extremo Oriente. E Dockery destaca: “... só nessa época que Jerusalém possuía especiarias, perfumes e artigos de luxo mencionados no livro, assim como grandes quantidades de ouro, mármore e joias preciosas” (Ct 5.14-15; veja IRs 10.14-22).

[5] Apesar de estar no cânon do AT o livro de Cantares não é citada uma única vez em todo o NT. Mais informações sobre a formação do Cânon do Antigo Testamento veja: http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/r72867/AT-Canon/2/

[6] O livro indica ser de autoria de Salomão e Baba Bathra 15ª não contradisse esta opinião. (YOUNG, 1977, P. 355).

[7] Diversos estudiosos judeus optam pela autoria do rei Ezequias, de Judá, uma vez que ele é o grande guardião da literatura de sabedoria israelita (Pv 25.1; cf 2Cr 32.27-29) (HILL e WALTON, 2006, p. 411). Os que advogam uma data tardia, séc. III, esbarram no fato de que não daria tempo do livro ser incluído na versão grega da Septuaginta, no final daquele século. 

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