NATAL NO EVANGELHO DE JOÃO: Jesus: Vida e Luz  (Natal) escrito em quarta 17 dezembro 2014 07:31

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Dos evangelistas João foi o último a compor sua narrativa e por esta razão ele pode abordar algumas questões que complementam o material elaborado pelos seus companheiros. Como Mateus e Lucas haviam compartilhado algumas informações sobre o nascimento de Jesus o quarto evangelista opta por  retroceder ainda mais no tempo e nos transporta ao princípio de todas as coisas. Para João o pequeno e frágil bebe da manjedoura é aquele que sempre existiu desde o inicio e pelo qual todas as coisas vieram a existir (1.1-3).

                Mas João continua sua argumentação natalina fazendo ainda algumas afirmações, pois sua intenção não é explicar o inexplicável, mas tão somente comunicar o que ele havia ouvido e crido.

 “Nele estava a vida” (1.4a). Aqui passamos do ponto de vista cósmico [relação de Deus e Jesus] ao ponto de vista antropológico e soteriológico. É importante enfatizar que João declara que a vida estava nele (cf. 5.26; 6.48,53; 11.25) e não por meio dele,[1] ou seja, desde toda eternidade a vida tem sua origem unicamente em Jesus. Quando João utiliza a palavra “vida” (ζωὴ) ele não se refere somente à questão biológica, mas frequentemente indica na literatura joanina a “vida espiritual”, bem como a “vida eterna”.[2] Desta maneira, a vida colocada à nossa disposição em Cristo tem uma qualidade e poder sobrenaturais, bem como uma extensão infinita.  A palavra “vida” não é acidental nesse prologo, mas ela norteia toda a narrativa evangélica, ocorrendo trinta e seis vezes como substantivo e na forma verbal “viver” dezesseis vezes.  Ao concluir sua narração João declara que seu objetivo principal foi que as pessoas pudessem obter “vida em seu nome [Jesus]” (20.31). Para o evangelista obter a vida eterna somente é possível àqueles que vierem a conhecer [crer] em Cristo a quem Deus enviou (17.3). Assim como Jesus dá vida à Criação, Ele também oferece vida eterna àqueles que nEle vierem a crer.

 “e a vida era a luz dos homens” (1.4b) – Mais uma vez o evangelista retorna à narrativa da criação em Gênesis. A primeira ação do Logos foi criar a luz (Haja luz e houve luz). Assim como por meio da luz o Logos iniciou o processo de colocar ordem no caos, da mesma forma a vinda de Jesus, o Logos, haverá de produzir vida (espiritual) onde havia apenas a morte (espiritual). A luz que emana de Jesus proporciona esperança a todas as pessoas que vivem nesse mundo cada vez mais enegrecido pela corrupção humana, que expande trevas cada vez mais tensas sobre toda a terra. Essa esperança de vida não se relaciona apenas com a eternidade, mas proporciona uma vida abundante e significativa aqui e agora, pois Sua luz ao penetrar o recôndito obscuro do coração e da mente humana produz entendimento da vontade de Deus e nos capacita a enxergarmos a vida e o mundo pela perspectiva de Deus. O caos em que a humanidade esta inserida é resultante de seu distanciamento da vontade de Deus, portanto, somente ao retornar para Deus por meio de Jesus o ser humano poderá retornar ao estado original. Deste modo o evangelista declara sem qualquer restrição que Jesus é tanto o autor da Criação como igualmente da Nova Criação.

 “E a luz brilha nas trevas” (1.5a) – Há uma mudança de tempo verbal aqui, de maneira que a luz não iluminou somente no passado, mas continua iluminando intensamente a todos os seres humanos. Essa manifestação da luz evangélica pode ser vista nas páginas do Primeiro Testamento, na promessa inicial de sua vinda (Gn 3.15); no Cordeiro Pascal e demais figuras no livro do Êxodo, bem como em cada uma ds ofertas especificadas no livro de Levítico; no livro de Números é representado na figura da serpente de bronze (Nm 21.8; cf. Jo. 3.14,15). Ele esta em toda literatura profética e nos livros poéticos e de sabedoria. Alcançou não apenas os israelitas, mas todos os povos com os quais eles tiveram contato, um dos exemplos são os moradores de Nínive que se arrependem e não são destruídos. Portanto, a narrativa evangélica joanina apenas dá continuidade a esta manifestação da luz provinda de Jesus para o ser humano perdido.

 “...e as trevas não a compreenderam[3] (1.5b) – trevas aqui se relaciona à humanidade que insiste em rejeitar a luz de Cristo. A grande maioria das pessoas é antagônica ao Evangelho de Jesus. Elas preferem permanecerem na escuridão, elas não aceitam a luz e nem se apropriam dela. Essa rejeição não é apenas na esfera do entendimento de uma apreensão mental ou de percepção. Ao fazerem uma opção pelas trevas o ser humano passa a odiar a luz com todas as suas forças, empreendendo todos os meios possíveis para impedir que a luz seja manifestada. Portanto, aqui temos uma antítese absoluta entre a luz e as trevas, o Evangelho do Reino e o sistema do mundo, entre Cristo e as forças malignas que permeiam a raça humana. Os que optam por permanecerem nas trevas não apenas tornam-se incapazes de compreenderem ou perceberem a luz, mas por mais que eles empreendam todo o esforço jamais poderão vencer a luz (Jo 12.35,36; 2 Co 4.6; Ef 5.8,9; 1Pe 2.9; 1Jo 2.8; cf. Mt 5.14-16).

                 O Natal é a manifestação da Luz intensa, poderosa e eterna sobre esse Mundo tenebroso. A cada Natal somos levados a contemplarmos nossos próprios pecados, bem como percebermos o quanto a Sociedade humana vem se degenerando horrivelmente. Alguns minutos diante da TV ou acessando algumas páginas na Internet ou mesmo ouvindo uma conversa informal entre algumas pessoas em uma fila, serão suficientes para tomarmos conhecimento de que não apenas estamos doentes como abitamos no meio de uma Sociedade totalmente adoentada.

                O Natal é a solução de Deus para esta situação moribunda da raça humana. Jesus veio para iluminar e conduzir o ser humano de volta a Deus. A questão é: as pessoas desejam voltar para Deus ou preferem permanecerem alienadas Dele?

                Você tem vivido nas trevas e sabe que nada de bom elas podem produzir a não ser a morte.....

Mais um Natal se aproxima e você mais uma vez têm a oportunidade

de experimentar dessa Vida e Luz que Jesus veio trazer!

 
 

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Guedes, Ivan Pereira

Mestre em Ciências da Religião.

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Referência Bibliográfica

BRUCE, F. F. (Editor) Comentário bíblico NVI – Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2008.

JEREMIAS, Joaquim. Estudos no Novo Testamento. São Paulo: Ed. Academia Cristã Ltda., 2006.

FEUILLET, O prólogo do quarto evangelho. São Paulo: Edições Paulinas, 1971.

DODD, Charles H. A interpretação do quarto evangelho. São Paulo: Editora Teológica, 2003.

PACK, Frank. O evangelho segundo João. São Paulo: Editora Vida Cristã, 1983.

ROBERTSON, Archibald Thomas. Imágenes verbales em el Nuevo Testamento, tomo 5 - Juan e Hebreos. Barcelona: CLIE, 1990.



[1] “A discussão exegética é se  as palavras traduzidas por ‘nele’ devem ser vinculadas ao termo ‘fez’, ou ao termo ‘vida’, a saber: ‘...nele estava a vida...’ (ou nele está a vida) ou ‘...tudo que foi feito nele, era a vida...’. Todas essas possibilidades são verdadeiras e podem ser demonstradas nas Escrituras.” (CHAMPLIN, 1987, p. 267).

[2] O termo grego usado para "vida" é “zoe” (ζωὴ) e sempre foi usado para descrever a vida divina e eterna no Evangelho de João. Jesus usou esse termo específico durante a Última Ceia quando disse aos discípulos: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (14.6).

[3] Uma ampla e importante discussão sobre a tradução do termo “κατέλαβεν” (compreenderam [Almeida Corrigida e Revisada Fie]); prevaleceram [Almeida Revidas Imprensa Bíblica, Sociedade Bíblica Britânica]; derrotaram [Nova Versão Internacional] pode ser encontrada no comentário de Feuillet (1971, pp. 49-52), onde o autor cita diversos estudiosos e as razões gramaticais para suas referidas opções de tradução do termo.

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BLOG – O NATAL NO EVANGELHO DE JOÃO: Tudo foi feito por Jesus  (Natal) escrito em quinta 27 novembro 2014 13:59

Blog de reflexaobiblica :REFLEXÃO BIBLICA, BLOG – O NATAL NO EVANGELHO DE JOÃO: Tudo foi feito por Jesus

Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito. (Jo 1.2-3) NIV

Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. (Jo 1.2-3)RA

Desde o princípio, a Palavra estava com Deus. Por meio da Palavra, Deus fez todas as coisas, e nada do que existe foi feito sem ela. (Jo 1.2-3) BLH

Ele criou tudo o que há - não existe nada que ele não tenha feito. (Jo 1.3) BV

            O evangelista João inicia sua narrativa com um precioso hino [natalino] cujo tema central é a origem eterna de Jesus. No verso inicial o evangelista faz três preciosas declarações: em primeiro lugar o Verbo existiu desde o princípio; em seguida, que Ele existiu com Deus; e por último que Ele era Deus. Agora ele não apenas reforça sua idéia inicial, mas amplia ainda mais afirmando que o Logos não apenas era Deus como também é o agente pelo qual todas as coisas vieram a existir.

Ele [Jesus], o Logos, que era Deus, era no [desde] começo, e estava [desde sempre] com Deus: Nesse segundo verso João não faz uma mera repetição da primeira declaração, mas uma reafirmação de que Jesus (Verbo/Logos/Palavra) sempre existiu e que sempre foi Deus, de maneira que a preexistência[1] e personalidade eterna de Jesus estão incluídas nessa segunda declaração. Esta unidade de Jesus e o Pai (Deus) não surge quando do ato da criação, ou se constitui apenas de uma unidade de sentimento, mas uma união de natureza e essência – Jesus sempre existiu na eternidade com Deus, nunca houve um tempo em que Jesus este separado de Deus (Trindade) em qualquer sentido. Se no primeiro verso a unidade do Logos e Deus poderia ser interpretado de forma subjetiva, esse segundo verso enfatiza de forma contundente que essa unidade é objetiva: Jesus não era um segundo Deus, nem era revestido de divindade e nem era procedente de Deus (Pai), mas o Logos (Jesus) desde o princípio era Deus em natureza e ser. Portanto, Jesus não é simplesmente a palavra de Deus, mas Ele é Deus. Aqui também temos a ideia de que a obra da Criação foi completa, se contrapondo ao conceito evolucionista e de reencarnação de que a criação é uma obra contínua.

Todas as coisas foram feitas por intermédio dele: A declaração anterior se constitui no ponto de transição para essa declaração. Uma vez que Jesus (Verbo/Palavra) é Deus, nada do que veio a ser criado foi feito sem a participação efetiva Dele. “Todas as coisas” implicam não apenas na obra da Criação e o próprio ser humano, mas inclui também outras atividades criadoras, como os céus e o próprio Universo. O termo Palavra (Verbo) trás a ideia de conhecimento e vontade, sabedoria e poder, que se manifestam na ação criativa. Portanto, Jesus (Verbo/Palavra) ao se envolver no ato criativo, estabelece uma estreita relação com as coisas criadas, de forma mais especifica com o ser humano, preparando o caminho para a Sua posterior encarnação (natal) e obra redentora (páscoa). Deste m odo, o evangelista João vai estabelecendo um vínculo direto entre a obra da Criação e a obra da Redenção por meio de Jesus. Ao criar o ser humano à Sua imagem e semelhança, Ele haverá posteriormente de restaurá-lo à condição original. Jesus ama o ser humano, por Ele criado, apesar da total desfiguração produzida pelo pecado; a manifestação integral desse amor pelo ser humano se manifesta em toda sua plenitude quando Jesus assume a nossa humanidade (natal) para poder efetuar a nossa redenção (páscoa).

e, sem ele, nada do que foi feito se fez:[2] Os gnósticos ensinavam que a Criação (matéria) era autônoma em sua existência, mas João declara enfaticamente que a origem da Criação esta unicamente no desejo de criar de Deus. E por meio de Jesus estabelece-se um elo visível entre Deus e o mundo material criado. Sendo Deus o autor da Criação e do próprio ser humano, tudo Lhe pertence (cf. Hb 1.2; 11.3).

As verdades contidas nestas frases iniciais da narrativa evangélica de João são fundamentais para responder ao principal argumento gnóstico de que o espírito é bom e a matéria é má. Mas ao afirmar que toda a criação veio a existir por meio de Jesus (Palavra/Verbo) e que Ele assume a nossa materialidade na encarnação, o autor evangélico demonstra que este mundo material não é essencialmente mau, mesmo que a entrada do pecado tenha produzido toda sorte de miséria (cf. Gn 1.10,12,18,21,25).

            O Natal, portanto, na perspectiva de João demarca o momento único em que o Deus Eterno, por meio do Filho, relaciona-se diretamente com a própria Criação, que Ele trouxe à existência e com o próprio ser humano que fora criado à Sua Imagem e Semelhança.

            O bebê gerado no ventre de Maria e que nasceu em uma singela manjedoura, num dos menores vilarejos da Judéia (Belém), não era outro se não o próprio Criador de todas as coisas. Desta forma, o Natal torna-se um reconhecimento de que Jesus é o Senhor soberano sobre todos e todas as coisas.

 

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Referência Bibliográfica

BRUCE, F. F. (Editor) Comentário bíblico NVI – Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2008.

JEREMIAS, Joaquim. Estudos no Novo Testamento. São Paulo: Ed. Academia Cristã Ltda., 2006.

FEUILLET, O prólogo do quarto evangelho. São Paulo: Edições Paulinas, 1971.

DODD, Charles H. A interpretação do quarto evangelho. São Paulo: Editora Teológica, 2003.

PACK, Frank. O evangelho segundo João. São Paulo: Editora Vida Cristã, 1983.

 

 

 

 

 

 

 



[1] Este termo não é o mais exato, mas na ausência de outro melhor tem sido utilizado para demonstrar que Jesus existia desde antes da criação.

[2] Uma leitura alternativa seria: “sem ele nada foi feito. O que foi feito, era vida nele”. (ELLIS, 2008, p. 1706, Org. BRUCE).

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O NATAL NO EVANGELHO DE JOÃO: Jesus sempre existiu.  (Natal) escrito em sexta 21 novembro 2014 10:15

Blog de reflexaobiblica :REFLEXÃO BIBLICA, O NATAL NO EVANGELHO DE JOÃO: Jesus sempre existiu.

              Enquanto Marcos inicia seus relatos a partir do batismo de Jesus às margens do rio Jordão; Mateus mergulha fundo na literatura dos profetas israelitas preservadas no Primeiro Testamento e Lucas inclui detalhes impressionantes obtidos por testemunhas oculares dos acontecimentos por ele narrado,distintamente de seus companheiros evangélicos, João opta por iniciar sua narrativa sobre o nascimento de Jesus – antes do tempo.

                É muito provável que João tenha tido acesso aos relatos de seus companheiros e contemporâneos. Ao propor uma nova edição dos acontecimentos evangélicos ele prefere dar uma nova perspectiva da origem de Jesus. Ele transcende o tempo e espaço e localiza Jesus no princípio da Criação. Marcos enfatiza a divindade de Jesus no momento do seu batismo, Mateus e Lucas deixam evidente a divindade de Jesus nos acontecimentos que se relacionam ao seu nascimento e João ratificando as informações de seus antecessores declara que Jesus sempre existiu desde o momento iniciante da Criação de todas as coisas. Para ele nunca houve um tempo em que Jesus não existisse – Ele existe desde sempre!

                Aproveitando essa atmosfera festiva, vamos resgatar a forma singular com que João nos apresenta seu relato natalino.

“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus.”[1] (Jo 1.1)

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”[2] (Jo 1.1)

“Antes de ser criado o mundo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e era Deus.”[3] (Jo 1.1)

“Antes de existir qualquer coisa, Cristo já existia, e estava com Deus.”[4]

“No princípio era o Logos e o Logos estava voltado para Deus (com Deus) e o Logos era Deus” (Jo 1.1)[5]

                Os escritores evangélicos que lhe antecedem localizam a origem de Jesus no tempo (Lc imperadores romanos) e espaço (Mt cidade de Belém) João abre sua narrativa evangélica com um enunciado em três partes, onde nos arremete para o princípio de todas as coisas.

No princípio era o Verbo [Palavra] - Ele vai buscar na expressão que abre as páginas da Torá judaica (primeira parte da Bíblica cristã), “No princípio” para indicar a origem eterna de Jesus. Mas há uma substancial diferenciação entre a expressão no livro de Gênesis e a expressão utilizada por João. Em Gênesis a expressão “No princípio[6] marca o ponto de partida de onde todas as coisas passaram a existir, pois antes não existiam; mas o evangelista utiliza a mesma expressão “No princípio” para localizar a existência de Jesus antes da existência da própria Criação. Para João quando todas as coisas passaram a existir, Jesus já existia e se fazia presente, portanto, não apenas o evangelista conecta o relato evangélico com o início da história do mundo, mas como que indica que o nascimento de Jesus é um prolongamento da página inicial da Bíblia inteira.

“No princípio era o Verbo”. Ao utilizar o verbo “era [ser]” no imperfeito[7] para completar o sentido de “princípio” João esta indicando a pré-existência de Jesus; o escritor evangélico esta escrevendo da perspectiva histórica, olhando para trás a partir da Encarnação do Verbo (nascimento físico de Jesus), portanto, Jesus não veio a existir no ato da Criação, mas Ele já existia[8] antes do tempo em que todas as coisas foram trazidas à existência, e no transcorrer da narrativa joanina (8.58) Jesus demonstra ter plena consciência desta verdade ao fazer uma declaração contundente: “Antes que Abraão fosse, eu sou”.

 O Verbo [Palavra] estava com Deus – Se a expressão anterior revela a pré-existência do Verbo com Deus, a segunda revela a distinção entre eles. A preposição grega “com - pros (πρός)” indica um movimento em direção a algo ou alguém, de modo que, aquele que “estava” desde o princípio, nunca esteve sozinho, mas sempre compartilhou da companhia de Deus (Pai).[9] Aqui tem também a ideia de comunhão entre o Logos e o Pai (Théos), de maneira que fazem todas as coisas em comum acordo (Jo 14.11, 20; 17.5,24).

 Era Deus – e concluindo sua afirmação inicial o evangelista mantém com toda clareza a distinção entre os dois seres, todavia, afirma sua unidade de essência. Aqui “Théos - Deus” esta sem o artigo, portanto, faz referencia à qualidade e natureza de Deus e não mais à pessoa do Pai especificamente. O Logos é distinto do Pai, todavia, partilha da natureza divina em toda sua plenitude e assim também é Deus. Aqui João não tem nenhuma pretensão de adentrar nas especulações do Logos do judaísmo helenista ou das ideias gnósticas tão em voga nos seus dias. Mas ciente de sua própria incapacidade, o evangelista não tem a mínima aspiração de explicar os detalhes desta coexistência de Jesus com Deus. Assim como seu antecessor ao abrir o livro de Gênesis, ele apenas faz uma declaração simples e direta da divindade de Jesus. Demonstra total ignorância qualquer ser humano que pensa poder desvendar os mistérios da natureza divina, pois se fosse possível fazê-lo Deus estaria restrito e limitado ao conhecimento humano. Para João os fatos são: em primeiro lugar o Verbo existiu desde o princípio; em seguida, que ele existiu com Deus; e por último que ele era Deus.

 Quando paramos para pensar nessas palavras iniciais do evangelista João, podemos perceber que o Natal não é e jamais será apenas uma “festa”; o Natal é, foi e sempre será o momento incomparável quando o Deus Eterno, na Pessoa do Filho, adentra à nossa História e mais ainda, assume a plenitude de nossa humanidade, para comunicar pessoalmente a nós a Salvação da qual tanto necessitamos.

Assim como a partir da “Palavra – Logos” a primeira Criação veio a existir, semelhantemente a partir de Jesus (Palavra – Logos) encarnado, a segunda e/ou nova Criação esta sendo trazida à existência (“Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação” II Co 5.17, cf. Gl 6.15 ).

Do mesmo modo como nos comunicamos através das palavras, que expressam o nosso conhecimento e a nossa vontade, Deus escolheu se comunicar conosco através de Jesus (Palavra), manifestando a nós o Seu conhecimento e a Sua vontade.

Mas assim como utilizamos as palavras para revelar os nossos sentimentos mais profundos, Deus escolheu manifestar seu mais profundo sentimento de amor para conosco por meio de Jesus (Palavra). Desta forma, somente podemos compreender e sentir o imensurável amor de Deus, quando ouvimos e nos relacionamos com Jesus (Logos).

Da mesma forma que pela Palavra Deus trouxe ordem e harmonia ao planeta que estava em caos, por meio de Jesus (Palavra) Deus trás ordem e salvação à toda pessoa que esta mergulhada em completo caos.

O Natal é a forma encontrada por Deus, para falar a cada ser humano, o quanto Ele nos ama!

 

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[1] NVI - Versão em Português: Nova Versão Internacional

[2] RA - Versão em Português: João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada

[3] BLH - Versão em Português: Nova Tradução na Linguagem de Hoje

[4] BV – Versão em Português: Bíblia Viva [paráfrase]

[5] Tradução de A. Feuillet

[6] Gênesis, [hebraico בראשׁית – Bereshith], proferida pela palavra grega [εν αρχη]

[7] Diferentemente do verbo no tempo aoristo, que indica um tempo especifico para a ação, no tempo imperfeito a ação se prolonga indefinidamente desde o momento iniciante, produzindo a ideia de algo que transcende o tempo. O verbo “ser” no imperfeito trás a ideia de existência – de algo que existe desde o princípio, que existe de maneira absoluta, desde sempre.

[8] O Ap. Paulo tem o mesmo entendimento (Col 1.15).

[9] Nos textos do Segundo Testamento, a palavra Théos (θεός), com o artigo, comumente refere-se à pessoa do Pai, no contexto da Trindade.

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NATAL – QUERO VER JESUS?  (Natal) escrito em terça 11 novembro 2014 12:43

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Em um bairro de periferia de uma grande cidade morava um sapateiro chamado Martim. Era um bom homem que lia sempre as narrativas evangélicas e acalentava um desejo muito grande de poder ter tido a oportunidade de ver Jesus, como aquelas pessoas dos evangelhos o tinham visto.

Na noite de antevéspera do Natal ele sonhou que Jesus lhe dizia: “Martim amanhã passarei em seu bairro!

Ao amanhecer Martim acordou, tomou seu café, fez sua leitura bíblica e saiu para ir a sua oficina, pois algumas pessoas ficaram de buscar suas encomendas. Ao sair para a calçada lembrou-se das palavras de Jesus em seu sonho e começou a olhar mais atentamente na esperança de que de fato pudesse vê-lo passando por ali.

Viu um velhinho esforçando-se para colocar o lixo para fora, mas a lixeira era alta. Aproximou-se então e ajudou aquele pobre homem. Continuou então seu percurso e duas quadras depois viu uma jovem mãe com sua pequena filha ao lado, com um semblante de grande apreensão. Conversando com a mulher descobriu que não haviam comido nada ainda naquela manhã e como estavam próximos da padaria entrou com ela e mandou lhes servirem um lanche e um café com leite. Estava já se aproximando de sua sapataria quando percebeu o movimento de dois adolescentes que assediavam uma senhora na tentativa de roubar-lhe a bolsa. Apressou seus passos e colocou-se entre eles e a mulher iniciando uma conversa como se a conhecesse, de maneira que os jovens desistiram de suas pretensões.

Chegando ao seu estabelecimento comercial, após abrir a porta, olha atentamente para a rua, na esperança de que por alguma razão seu sonho de ver Jesus passando por ali se concretizasse – mas tudo lhe pareceu exatamente como todos os dias. Resignado mergulhou em seu trabalho.

A noite chegou. Martim prepara-se para dormir, em seu pensamento dizia: “O natal chegou e Jesus não veio.” Fez sua oração e deitou-se. Enquanto dormia teve mais um sonho onde ouvia uma voz que dizia: “Martim você não me reconheceu hoje?” Ele então pergunta: “quem?”. A voz lhe respondeu: “Eu, Jesus!” Então Martim viu o rosto de cada uma daquelas pessoas que ajudara naquela manhã, Enquanto caminhava até sua sapataria, e cada um deles dizia: “sou Eu, sou Eu....”

Para vermos Jesus é preciso reconhecê-Lo em nosso próximo!

Disse Jesus:

“Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. (Mt. 25.40)

 

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RELATOS EVANGÉLICOS DO NASCIMENTO DE JESUS: Uma Crônica Teológica  (Natal) escrito em quinta 06 novembro 2014 10:57

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            Quando abrimos as páginas iniciais das narrativas evangélicas elaboradas por Mateus e Lucas deparamo-nos com as informações sobre o nascimento de Jesus. Os outros dois evangelistas, Marcos e João, optaram por não registrarem informações sobre estes acontecimentos. Marcos inicia com a pessoa de João Batista e sua pregação contestadora da frívola religiosidade judaica de seus dias e prenuncia a vinda daquele que haveria de mudar radicalmente esta caótica situação; O evangelista João opta por retroceder à origem divina de Jesus apresentando-o como a plena revelação de Deus ao seu povo e a partir de então à toda humanidade.

            Apressadamente alguns comentaristas têm inferido de que os relatos natalícios são informações secundárias e, portanto de importância periférica para a compreensão da mensagem evangélica; outros entendem que as informações de Mateus e Lucas são introduções opcionais sobre o personagem central do evangelho e que poderiam ser suprimidas sem causar danos maiores ao desenvolvimento das narrativas e sua mensagem.

            Essas deduções apressadas não são validadas por um estudo mais criterioso do conteúdo destas informações iniciais e o conjunto das narrativas que se seguem. Os textos natalícios são parte integrante da elaboração evangélica proposto por seus respectivos escritores e estão perfeitamente sincronizadas com o todo dos relatos posteriores; com ausências destas informações preliminares a composição sofreria um lapso histórico-teológico irreparável, empobrecendo as narrativas sucessivas. Tanto Lucas quanto Mateus se utilizam deste preambulo natalício para preparar seus leitores para uma compreensão mais profunda dos temas que estão por serem abordados ao longo das suas narrativas.

            É preciso alertar sempre para o fato de que nenhum deles esta escrevendo uma biografia, nos molde moderno do termo, mas tão somente registrando dentro de critérios por eles estabelecidos, os acontecimentos envolvendo a vida de Jesus. Por outro lado, tais relatos não se constituem em uma coletânea de lendas místicas, utilizadas desde muito para enaltecer o personagem central em relação aos demais. De maneira que, o ambiente proposto por Lucas e Mateus é muito distinto daqueles encontrados nas narrativas evangélicas denominadas apócrifas, como por exemplo, o Protoevangelho de Tiago, ou o Evangelho da infância segundo Tomé, que registram o sobrenatural como artificio para suscitar a admiração dos leitores. Para Lucas e Mateus os relatos são apenas preparatórios para se compreender de forma mais adequada quem foi Jesus e a razão de seu ministério, sua morte e ressurreição.

            Esses relatos natalinos também se constituem em importante ponte de ligação com os registros na primeira parte da Bíblia. Os personagens aqui mencionados são representativos da herança religiosa desenvolvida por séculos dentro do judaísmo. Para Lucas e Mateus compreender a mensagem do Primeiro Testamento é compreender corretamente a manifestação do Advento de Cristo, pois Jesus se constitui no cumprimento de tudo quanto foi proclamado no transcorrer de toda história israelita. Pois dentro da forma interpretativa dos evangelistas, suas introduções natalícias têm como propósito relacionar diretamente o tempo de Jesus como a conclusão do tempo israelita e a inauguração do novo tempo da igreja. Pois para os evangelistas os propósitos de Deus são revelados paulatinamente e se desenvolvem no transcorrer dos fatos por eles registrados em seus respectivos evangelhos.

            Quando analisadas separadamente as duas narrativas são diferentes, mas jamais contraditórias; mas quando estudadas conjuntamente elas se completam de forma harmoniosa como se completam e se harmonizam perfeitamente os diversos instrumentos em submissão a musica composta e sob a batuta de um único regente.

            Aproximação do natal possibilita e estimula uma leitura desses relatos tão ricos sobre o nascimento de Jesus. Caberá a cada leitor as suas próprias conclusões sobre a relevância dessas informações para compor sua significação do que Jesus é para eles. Desde os escritores e seus primeiros leitores, bem como dos últimos a lerem essas narrativas natalinas, o pressuposto da fé e continuara a ser sempre um fator decisivo para recepção, interpretação e divulgação desta mensagem, que mesmo após dois mil anos ainda permanecem tocando profundamente a vida de milhões de pessoas em todo o mundo que leem e ouvem essas narrativas natalícias de Jesus.

 

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